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Os primeiros desenhos01.06.15

Quando a criança pequena vence suas primeiras dificuldades físico-posturais – por exemplo, sustentação do tronco superior –, acontece concomitantemente uma maior exploração do meio. Ela observa, manipula e ressignifica tudo à sua volta. É nesse momento que habitualmente acontece a manipulação primeira de objetos, como o giz de cera, os pincéis, as tintas, etc.

Assim, bem antes que uma criança pequena possa organizar e elaborar seus desenhos, ou melhor, seus primeiros traços, é necessário encorajá-la a descobrir os objetos, suas cores e suas formas. Ela aceitará melhor as condutas e as técnicas precisas e mais organizadas e/ou estruturadas (modo de utilizar, controle do gesto…) se já tiver conhecimentos prévios dos materiais, bem como oportunidade de livre exploração dos utensílios, dos materiais e da disposição destes no local. As descobertas feitas pelas crianças pequenas são mais significativas e mais importantes do que o resultado estético obtido.

É importante que se proporcione o maior número de experiências com materiais alusivos à construção de desenhos, pinturas, formas em argila, de modo que a criança possa tocar e reconhecer os materiais, misturar e apreciar livremente os resultados e ter prazer e ludicidade nesse jogo criativo.

A atenção do adulto nesse período de intensa descoberta da criança é muito importante. É ele quem acompanha os primeiros passos da criança, seus primeiros gestos, suas primeiras sensações. Nesse mo-mento, a criança busca compreender noções de lugar, espaço, tamanhos, texturas e adquire conceitos como quente e frio, nome das cores e dos materiais, etc. Com o auxílio do adulto, acontecerá, simultaneamente, um grande enriquecimento do vocabulário e do repertório na argumentação.

Buscando fundamentação em Piaget, sabemos que, para conhecer os objetos que a cercam, a criança deve agir sobre eles, transformando-os até chegar a compreendê-los. Essa apropriação das coisas do mundo resulta, portanto, da própria atividade da criança. Ela se apossa do que abstrai de suas experiências e aumenta seu conhecimento. Os objetos também influenciam as ações da criança, modificando-as, ao mesmo tempo em que têm suas funções originais modificadas por elas.

Assim, é importante atentar para o fato de que a criança desde muito pequena deve ter a oportunidade de vivenciar algumas experiências antes de ter nas mãos um giz de cera e um papel, ou um pincel e tintas para efetuar seus primeiros desenhos. É imprescindível que contatos anteriores com os materiais e procedimentos de encorajamento associados à maturidade motora aconteçam em contextos de significados repletos de amorosidade e prazer. Os gestos e a coordenação motora organizar-se-ão melhor à medida que o adulto lhe proporcionar tal conjuntura, e principalmente lhe proporcionar ampla visão de mundo.

O desenho infantil é o resultado da interpretação espontânea dos momentos de aprendizagem, da conquista da organização estruturada do gesto e do manuseio adequado dos materiais e das cores. As experiências ofertadas pelos adultos e pelo ambiente que a cerca, bem como os utensílios à sua disposição, serão fatores determinantes nessa iniciação da criança com a expressão gráfico-plástica.

Paulatinamente, a criança começa a organizar o traço e suas idéias, e as tentativas de apresentar formas estruturadas e localizadas no tempo e no espaço aparecem, ainda que de forma rudimentar para o adulto.

Pedir a essa criança que investigue e descubra os limites existentes em diferentes superfícies e, num segundo momento, proporcionar diferentes possibilidades de organizar nesse espaço seus traços e/ou seus primeiros desenhos certamente serão de grande ajuda para que ela obtenha referências e construa intuitivamente o conceito de proporcionalidade.

Outro fator importante é oferecer a possibilidade de a criança desenvolver seus desenhos em diferentes planos de trabalho; oferecer superfícies na horizontal e na vertical e papel em tamanho grande o sufi ciente (quanto menor a criança maior deverá ser o papel) contribui muito para que a criança construa noções espaciais, bem como a localização e a utilização do espaço proposto. É importante, ainda, ofertar superfícies diferentes do papel, como a madeira ou paredes, por exemplo.

As brincadeiras, dirigidas ou não, envolvendo manipulação dos materiais pertinentes à construção de desenhos colocam a criança na linguagem natural de seu universo, podendo ser pinturas com esponjas, com as mãos, com os pés, etc. Essas atividades permitem que a criança interaja com o universo das artes e se aproprie dele de forma lúdica e significativa.

A progressão gradativa do controle físico-postural e a crescente conquista motora, associadas à curiosidade aguçada e à vontade de explorar e dominar o mundo ao seu redor, fazem com que a atividade ante o desenvolvimento e a construção de desenhos aumente em quantidade e qualidade.

Aos poucos, essa criança já se organiza melhor no tempo e no espaço, já utiliza com maior propriedade os materiais e suas possibilidades. As formas são mais definidas e buscam cada vez mais correspondência com o contexto vivenciado. É interessante observar que a criança vai regulando paulatinamente o diálogo com o desenho. À medida que dialoga com parceiros e/ou absorve interferências ambientais, vai modificando e ressignificando seu desenho.

Gradativamente, ela vai construindo seus referenciais de proporcionalidade, cores, espaço, tempo, etc. As crianças estão nessa fase desenvolvendo funções mentais bastante elaboradas, estão ampliando sua visão de mundo, bem como a percepção do cotidiano, e questões relevantes como “quem fez o papel?”, “e as tintas, como foram feitas?” fazem parte de seu repertório.

A maneira de interagir com o material e a preferência por este ou aquele aparecem também de forma mais definida, até mesmo a mistura das cores mostra particularidades e sensibilidades diferentes, tanto no fazer quanto no resultado final e na apreciação.

Nessa fase, os desenhos carregam uma relação estreita com as emoções mais sinceras, as crianças desenham seus desejos, seus sonhos, seus amores e seus desamores. Fazem do espaço lúdico-plástico um construir e reconstruir da imaginação e da memória afetiva.

É muito importante respeitar o tempo e o repertório particular de cada criança, não lhe ofertando modelos preconcebidos pelo adulto, ao contrário, permitindo que ela mesma crie e recrie suas próprias técnicas de representação.

Nancy de Fátima Silva Morita

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