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Técnica e intencionalidade em fotografias feitas pelo celular08.04.15

A teoria aliada à tecnologia portátil leva a moçada a refletir sobre linguagem fotográfica.

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Os telefones celulares estão presentes em praticamente todas as salas de aula, ao alcance dos alunos. Em vez de disputar a atenção dos jovens com os aparelhos, o professor José Luiz Tavares da Silva resolveu aproveitá-los para elaborar um projeto de fotografia com sua turma do 8º ano da EMEF Professora Antônia Rosa, em São João da Ponta, a 130 quilômetros de Belém. Ele começou conversando com a classe sobre as diferentes funções das imagens: registro histórico, resgate da memória sentimental ou recurso profissional em diversas áreas. Mas o docente queria explorar com a moçada o potencial criativo dessa linguagem artística. “Minha ideia era que eles entendessem que a fotografia conta uma história, é a valorização de um momento. Ela é um texto, só que visual”, defende.

Com base em informações do livro História e Cinema: Educação para as Mídias, de Renato Mocellin (88 págs., Editora do Brasil, tel. 0800-770-1055, 30,90 reais), Tavares da Silva conversou com os jovens sobre aspectos técnicos como o ISO e a diferença entre o obturador e o diafragma. Enquanto o diafragma controla a quantidade de luz que passa pela lente, o obturador define o tempo de exposição a ela. Também falou sobre a importância do enquadramento e mostrou ilustrações que explicavam a espiral de ouro ou regra dos terços. Funciona assim: marca-se a foto com duas linhas paralelas verticais e duas horizontais, dividindo a imagem em nove retângulos. “A intersecção das linhas revela os chamados pontos áureos, que, se bem observados quando se registra a imagem, garantem que a composição fique mais equilibrada”, explica Wagner Souza e Silva, professor de fotografia da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP). A classe analisou imagens demarcadas com as linhas e notou que a localização das figuras principais da imagem correspondia aos pontos áureos.

Depois do primeiro contato com a arte da fotografia, os estudantes avaliaram com o professor as particularidades e os recursos das diferentes câmeras de celular. “Vimos que o zoom digital pode alterar a qualidade da imagem e que algumas câmeras já mostram na tela as linhas da espiral de ouro. Mas esses recursos são limitados se comparados aos da máquina fotográfica”, explicou. Souza e Silva aponta mais diferenças entre os aparelhos portáteis e os tradicionais que podem ser trabalhadas durante a prática: “Com o celular, é difícil focalizar em um objeto específico e deixar os outros menos nítidos, a não ser que você esteja muito próximo dele. Quando elegemos uma área para aplicar um efeito de nitidez, burlamos a característica das câmeras de celulares de deixar tudo muito em foco”.

Tavares da Silva levou para a sala de aula os computadores portáteis disponíveis na escola com acesso à internet. A turma pesquisou sites com informações sobre a história da fotografia mundial, além de ver registros de grandes fotógrafos, tudo para refletir sobre essa linguagem. Alguns conteúdos interessantes podem ser encontrados no site do Instituto Moreira Salles, na Enciclopédia do Itaú Cultural e na linha do tempo produzida por NOVA ESCOLA.

Antes de sair pela cidade, o professor conduziu com os alunos uma reflexão sobre problemas ambientais da cidade de São João da Ponta, como a extração de caranguejo fora de época, as queimadas para a agricultura e a presença de lixo no mangue e no rio. O docente passou o vídeo A Carta do Ano de 2070, sobre um futuro sem sustentabilidade. “É interessante notar que o educador aborda temáticas transversais do currículo – a ecologia, a sustentabilidade e a preservação do meio ambiente – e trabalha com a fotografia”, aponta Umbelina Barreto, professora do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Em seguida, Tavares da Silva pediu que a turma pensasse na cidade e registrasse lugares que gostaria de ver preservados. A garotada foi dividida em grupos de cinco e saiu a campo. “Curiosamente, sem que eu tivesse falado nada, todos escolheram retratar o Rio Mocajuba e seu entorno”, conta o educador. Cada estudante deveria fazer pelo menos uma imagem. Quem não tivesse celular poderia usar o do colega. Adriano Cordovil Duarte, 15 anos, fotografou um ninho de pássaros na beira da água. “O rio é um local que gostaria de ver preservado e achei que a imagem mostrava essa vida.”

Prática e análise da produção

Diferentes olhares surgiram: alguns registraram a relação da comunidade com o local, outros regiões com poluição ou a natureza ao redor. O professor acompanhou algumas saídas a campo. “Percebi que, quando estavam sozinhos, os grupos ficavam presos em registrar o momento. Ao acompanhá-los, houve mais intervenções e uma preocupação maior com a produção”, lembra. De acordo com Souza e Silva, o professor deve tomar cuidado para não impor padrões. “Os estudantes precisam ser livres para experimentar e a presença do docente é interessante para expandir as possibilidades, mas não pode delimitá-las”, defende ele.

Depois de receber as fotografias dos alunos, Tavares da Silva usou o próprio notebook, levado à sala de aula, para mostrar à turma o que foi produzido. O professor provocava o debate com perguntas: “Qual foi sua intenção com esse registro? Que mensagem você gostaria de passar?”. Em grupo, os alunos observarm se, de fato, os objetivos do autor foram alcançados e compartilharam o que sentiram. Alex Nascimento Almeida, 16 anos, conta que registrou crianças pulando no rio. “A luz estava boa, a posição das pessoas também e peguei o salto no ar. A foto ficou espontânea, pois elas estavam se divertindo e isso é transmitido pelo movimento.” O colega Fernando Rodrigues Silva, 15 anos, teve o cuidado de preparar uma cena com personagens. “Quis mostrar com a foto que há na paisagem coisas que a gente não vê.”

Estudantes e professor analisaram enquadramento, intensidade da luz e foco. “Pedi que apontassem o foco da imagem e o que ele representava para o conjunto. Conversamos sobre fotografias em que o branco estava ‘estourado’ – termo utilizado para dizer que uma área clara emite tanta luz que atrapalha a visão de outras formas – e nos questionamos como aqueles registros poderiam ser melhorados”, explica.

O processo de sair a campo para fazer os registros, voltar para a sala de aula e debater sobre o que foi produzido levou cerca de 15 dias. Nesse período, os jovens tiveram a oportunidade de refazer os registros, caso quisessem. Para finalizar o trabalho, Tavares da Silva organizou uma mostra. Cada grupo foi convidado a escolher apenas uma foto, o que levou a sala a uma discussão para chegar a um consenso. “A escolha de uma imagem tem sempre uma relação subjetiva. É importante definir os parâmetros de classificação para essa tomada de decisão. Isso pode ser trabalhado com o próprio grupo”, diz Umbelina.

Entusiasmado com os resultados do trabalho, o professor resolveu continuar explorando as possibilidades das câmeras de celulares da turma, estimulando a produção de curtas-metragens. Já que a fotografia é a base do cinema, não foi difícil ampliar as informações sobre enquadramento e luminosidade e aplicá-las às imagens em movimento. Dessa vez, os grupos foram em busca de lendas típicas contadas pelos mais velhos da comunidade, depois escreveram roteiros e saíram a campo para gravar, utilizando com propriedade e desenvoltura os recursos do celular.

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